
1. A biotecnologia apresenta mais um apavorante cenário supernatural. No entanto, comida Frankenstein e bebês de seis dedos por pé (ou qualquer possível fracasso da manipulação genética) me assustam muito menos do que seus atuais êxitos. Em um mundo no qual toda decisão feita pela ciência é (pré-)determinada por interesses monetários, tem-se um mundo no qual a ciência e a humanidade não têm sequer um interesse em comum. Quem, exatamente, será "beneficiado" com o iminente fim da reprodução humana tal como a conhecemos? Quais 3% do mundo vão se parecer com estrelas de cinema/TV (que já se parecem com mutantes) – e quais 97% se assemelharão a graduados fracassados da Escola do Terror de Chernobyl?
E por que os americanos parecem se importar tanto com a propriedade de cada pedaço de música gravada (gravações que nada mais são do que tumbas digitais de performances uma vez vivas) e tão pouco com a propriedade do "copyright intelectual" do DNA do, digamos, arroz? A bioengenharia aliada ao Capital Puro já remodelou nossa realidade viva; as "aplicações assassinas" e "genes terminais" são meros detalhes. Este é o futuro; estamos vivendo nele agora. E nenhum escritor de ficção científica o previu.
2. Nada está acontecendo. O que você vê acontecendo é o que está efetivamente acontecendo – isto é, nada. Nenhuma conspiração, nenhuma profundidade, nenhuma ilusão. Não há nada escondido, nenhum dado deixa de ser processado. Toda a informação, todo o tempo; superfície infinita e profundidade micrônica. Toda a luz, nenhuma sombra.
O intermediário para esse êxtase de informação é, claro, a mídia. Unificada em escala global pela primeira vez desde que a escrita foi inventada, toda a mídia – TV, rádio, cinema, internet, educação, música – propaga a mesmice, a mesma avidez histérica por um ainda menos sedutor fetichismo, a mesma tela fina sobre um abismo de tédio. E o tédio em si é a débil cortina que mal contém nosso terror, nossa raiva, nossa vergonha. Fatias mais e mais finas.
3. O Primeiro Mundo e o Segundo Mundo fracassaram; o Capitalismo morreu no mesmo momento que o Comunismo. Apenas o Capital Puro sobrevive. Não há Terceiro Mundo e não há Terceira Via. De um lado, a humanidade; do outro, o dinheiro. Não se trata mais apenas de uma questão de mera tática. Conceitualmente isso é confrontação, estratégia, guerra.
Mas como se trava uma guerra contra entidades desencarnadas? Magia negra malasiana? Exorcismo? Provavelmente em vão. Poderia existir alguma forma de batalha passível de ser travada no plano invisível? Uma resposta em forma de guerrilha à Guerra Pura do Puro Capital? Uma estratégia, sim – mas qual?
4. Eu gostaria de fazer um apelo à teoria, o que de modo algum implica ideologia. "Theoria" originalmente significa "visão" e inclui tanto vista como "experiência visionária". Desde a decadência da pós-desconstrução, do pós-modernismo e do pós-tudo o mais, a teoria caiu em maus lençóis. A teoria requer agora loucura psicotrópica e espontaneidade. A teoria precisa, sobretudo, clarear a questão do Capital, e este é um trabalho de negação.
Enquanto isso, como encerramento, uma saudação ao fazendeiro francês José Bové. Ele fez mais pela causa ao dirigir seu trator Mc Donald’s adentro do que todas as webpages e todas as ONGs juntas.
Hakim Bey
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